
Dr. Luiz Octavio Dutra · Oftalmologista · Coordenador do Serviço de Urgência e Emergência Oftalmológica · H2 Experts 2026
O paciente chegou com queixa ocular. E agora?
O pronto-socorro não é ambiente de oftalmologista. Mas é onde as urgências oculares chegam primeiro — e onde a conduta nas próximas horas pode significar a diferença entre visão preservada e perda permanente.
Descolamento de retina, crise aguda de glaucoma, trauma ocular, celulite orbitária: essas condições têm em comum a necessidade de reconhecimento rápido por quem está na linha de frente. O objetivo deste artigo é exatamente esse — dar ao médico do PS as ferramentas para reconhecer, estabilizar e encaminhar corretamente, sem esperar pelo especialista para tomar a primeira decisão.
Reconhecendo a gravidade: o que não pode passar despercebido
Antes de qualquer exame, três apresentações exigem atenção imediata e devem elevar o nível de alerta independentemente do diagnóstico inicial:
Dor ocular intensa e de início súbito raramente é banal. Glaucoma agudo, uveíte anterior e trauma penetrante cursam com esse padrão — e todos têm janela terapêutica estreita.
Visão turva ou embaçada de início abrupto deve levantar suspeita de descolamento de retina, oclusão vascular ou neurite óptica. A pergunta "há quanto tempo?" importa: horas fazem diferença no prognóstico.
Qualquer trauma ocular, independentemente da aparência, deve ser tratado como potencialmente grave até prova em contrário. Lesões que parecem superficiais podem esconder perfurações, corpos estranhos intraoculares ou fraturas de órbita.
Se um desses três cenários estiver presente, o encaminhamento ao oftalmologista deve ser acionado em paralelo ao atendimento — não depois.
Conduta inicial: do primeiro contato ao encaminhamento
A abordagem segue uma lógica simples: avaliar, examinar, proteger, encaminhar. Cada etapa tem uma função específica.
Avalie a acuidade visual antes de tudo. Tabela de Snellen, contagem de dedos ou percepção de luz — o que estiver disponível. Esse dado é o baseline do caso e precisa estar documentado antes de qualquer intervenção. Sem ele, não há como acompanhar evolução nem comunicar adequadamente ao especialista.
Investigue o mecanismo e o tempo. Trauma ou espontâneo? Há quanto tempo? Houve uso prévio de colírios ou medicações? Sintomas associados como cefaleia intensa e náusea sugerem glaucoma agudo. Fotopsias e "cortina" no campo visual apontam para descolamento de retina.
Examine com o que você tem. Fundo de olho, pressão intraocular e, se disponível, lâmpada de fenda. PIO acima de 21 mmHg já é sinal de alerta; acima de 30 mmHg em contexto de dor e visão turva é emergência. O colírio anestésico pode ser usado para facilitar o exame — mas não deve ser prescrito como tratamento.
Proteja o olho afetado. Curativo estéril oclusivo sem pressão. Em suspeita de perfuração, protetor ocular rígido sem contato direto com o globo. Nenhuma manipulação de corpo estranho sem equipamento e treinamento adequados — a tentativa de remoção às cegas pode transformar uma lesão controlável em catástrofe cirúrgica.
Acione o encaminhamento com informação. Ao contatar o oftalmologista ou unidade de referência, comunique: acuidade visual aferida, PIO se medida, aspecto da córnea e pupilas, mecanismo de trauma se houver. Um relato claro agiliza a triagem no serviço de destino.
O que não fazer — e por que esses erros acontecem
A maioria dos erros em urgência oftalmológica no PS não vem de negligência, mas de dois padrões conhecidos: subestimação e excesso de intervenção.
Subestimar o trauma ocular é o erro mais frequente. O olho vermelho pós-trauma sem dor intensa tende a ser rotulado como conjuntivite traumática — e corpos estranhos intraoculares ou microperforações passam sem investigação. A regra prática: qualquer trauma com objeto pontiagudo ou projétil em alta velocidade exige investigação de perfuração até que se prove o contrário.
Prescrever colírios sem diagnóstico — especialmente corticosteroides tópicos — é uma armadilha que pode agravar infecções herpéticas, mascarar glaucoma e retardar o diagnóstico correto. O colírio anestésico tem papel no exame, não no tratamento.
Menosprezar os sinais de alarme por excesso de confiança no diagnóstico mais simples é o terceiro padrão. Glaucoma agudo é confundido com enxaqueca. Uveíte anterior vira "conjuntivite". Descolamento de retina inicial passa como "corpo flutuante comum". A dúvida, nesses casos, deve pender para o encaminhamento — não para a observação.
Antes de liberar o paciente: o checklist do PS
Acuidade visual de ambos os olhos aferida e documentada
Fundo de olho examinado e pressão intraocular aferida
Colírio anestésico utilizado apenas para exame, não prescrito
Olho afetado protegido com curativo estéril
Sinais de edema periocular, proptose ou hemorragia subconjuntival monitorados
Encaminhamento acionado com relato clínico resumido
Take-home message
Em urgência oftalmológica, o papel do médico do PS não é fechar diagnóstico — é reconhecer gravidade, estabilizar e garantir que o paciente chegue ao especialista no tempo certo, com as informações certas.
Referências
Sociedade Brasileira de Oftalmologia (SBO). Diretrizes de Urgências Oftalmológicas. 2022.
American Academy of Ophthalmology (AAO). Basic and Clinical Science Course — Emergency Ophthalmology. 2023.
Kanski JJ, Bowling B. Oftalmologia Clínica: Uma Abordagem Sistemática. 8 ed. Elsevier, 2016.
Brasil. Ministério da Saúde. Protocolo de Atendimento em Urgências Oftalmológicas na Atenção Primária. 2021.



